Combate à pobreza na agenda da CPLP

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) foi criada há 15 anos para responder aos desígnios e desafios dos oito Estados-membros. Entre os objectivos traçados e as perspectivas da organização, muito ainda há a percorrer. Se antes havia uma clara necessidade de a comunidade se mostrar ao Mundo, hoje o desafio está voltado para acções concretas como a erradicação da pobreza e o analfabetismo, bem como a luta contra a Sida.
Numa entrevista à comunicação social, o secretário executivo da CPLP, Domingos Simões Pereira, falou das perspectivas da organização e afirmou que a comunidade reclama por mais oportunidades de intervenção. Além disso, disse haver necessidade dum conhecimento mútuo entre os países-membros.
“A nível da CPLP, queremos criar um centro de documentação e outros projectos, mas não queremos ser um oásis. Temos de ser uma rede com estruturas fortes e inclusivas e estas têm de se traduzir em políticas mais inteligentes para que sejam resolvidos os problemas dos nossos países”, defendeu o responsável.
Que organização temos, 15 anos depois? A esta questão, o secretário executivo da CPLP disse que a organização vai crescendo com objectivos ambiciosos, mas tem consciência dos ciclos que podem ser estabelecidos como metas.
“Temos uma organização que se foi estruturando ao longo dos 15 anos e foi se mostrando ao Mundo. Hoje persegue metas concretas não só na cooperação mas também na promoção da Língua Portuguesa e na cultura, bem como na construção de sociedades mais democráticas”, sublinhou.
Domingos Simões Pereira acredita que os próximos tempos vão ser preenchidos por metas e objectivos mais globais que têm a ver com a erradicação da fome e o analfabetismo no espaço da CPLP, um desafio a ser perseguido por todos.
O secretário executivo considerou que a construção do Estado democrático é um processo evolutivo, já que a maior parte dos países-membros passaram por um período de descolonização, além de terem enfrentado guerras internas. Por isso, disse ser normal que esses países levem um pouco mais de tempo para criar todas as premissas necessárias para a afirmação do Estado de Direito Democrático.
“Felizmente, reconhecemos que o caminho tem sido feito e o percurso já é visível, embora o caminho percorrido não satisfaça. Temos de continuar a reconhecer que há lugares mais importantes a atingir. Não é só proclamar que temos Estados democráticos, mas devemos criar as condições para que a distribuição das riquezas de cada país atinja todos os cidadãos”, realçou o secretário executivo.
Domingos Simões Pereira afirmou que a organização teve alguns ganhos, entre os quais destacou o facto de os países estarem unidos. “Após 15 anos decorridos, o principal ganho é vermo-nos continuar juntos”, realçou.
O segundo maior ganho, disse, “reside no facto de termos um espírito solidário e reconhecermos que, não sendo países necessariamente ricos, há complementaridade de acções que criam laços e consolidam a aproximação.
Hoje, disse, não existem na organização “zonas sombra”, na medida em que não há nenhuma agenda que algum Estado entenda inadequada para o espaço lusófono.
O secretário executivo explicou que há algum tempo questões como a segurança e a partilha de determinados direitos suscitavam alguma complexidade, o que já não se verifica, por haver mais abertura dos próprios Estados-membros.
“Era normal que aparecessem alguns Estados que achassem que determinados assuntos só podiam ser tratados no contexto interno. Hoje há uma maior abertura. Todas as agendas políticas a nível dos Estados são também uma agenda da CPLP. Temos as condições mínimas para enfrentar os grandes desafios da organização”, salientou Domingos Simões Pereira.

Crise económica mundial

O secretário executivo da CPLP sublinhou que o continente africano deve ver na crise económica e financeira mundial uma oportunidade para se reinventar e que não deve ter receio de inovar. “Não podemos ter receio e medo de sermos inovadores. Não há nada que diga que têm de ser os outros a descobrir coisas que sejam válidas para nós todos”, defendeu.
Domingos Simões Pereira disse que o encontro de peritos da comunidade, decorrido em Lisboa, visou analisar e avaliar o desempenho das estruturas onde estão enquadrados e levar aos políticos e decisores contributos técnicos que fundamentem uma mudança de visão.
O grande problema, prosseguiu, tem a ver com as potências que dominam a economia mundial, que se sentem confrontadas com as dificuldades de continuarem a ser os únicos decisores da política económica mundial.
Por isso, defendeu que a CPLP tem de questionar se está bem posicionada para responder aos problemas que a crise coloca e tirar proveito dela. Todavia, considerou não ser boa estratégia que Portugal, enquanto membro da União Europeia, continue a procurar ajuda a nível de mecanismos estritamente financeiros, quando tem do outro lado do Atlântico parcerias e afinidades que deviam permitir um maior aproveitamento. “África tem 40 por cento dos recursos energéticos e consome sete por cento destes recursos. Há um grave problema ao nível das produções biológicas e o que produzimos em África é essencialmente biológico. Porque razão temos de ver esta depressão como um problema para nós? Acho que devemos vê-la como um momento de oportunidade”, notou.

Valorização dos quadros

Um dos factores que considera primordiais para o continente africano reside na necessidade de se reencontrar, valorizando os seus quadros, já que não são inferiores aos outros, mas admite ser necessário que se encontre um espaço que seja propício ao desenvolvimento das suas capacidades, “numa altura em que se quer que sejamos capazes de experimentar o que outros países do Mundo já o fizeram”.“O africano deve colocar a competência como principal argumento e recurso. Não acho que a África seja carente de recursos.  Acho é que a valorização destes recursos tem sido menos visível. Acredito que os recursos de que dispomos têm qualidade”, sustentou o secretário executivo da CPLP.
Domingos Simões Pereira argumentou que as políticas públicas dos países membros da organização devem ser vistas na perspectiva do desenvolvimento e melhoria das condições de vida, bem como serem capazes de diagnosticar, enfrentar e dar solução aos problemas que surgem, já que o espaço multilateral é o reflexo do que cada um faz.
Todos os países, prosseguiu, devem de compreender que tanto têm de influenciar para que as políticas públicas globais sejam realmente inclusivas, como também devem fazer com que as suas políticas internas possam beneficiar e fazer com que a população se reveja nelas.

Fortalecer a Língua Portuguesa

Relativamente à promoção da Língua Portuguesa à escala planetária, disse que o primeiro diagnóstico está feito, numa altura em que reconhece haver trabalho pela frente.
Em torno disso, disse existirem eixos a serem concretizados. O primeiro tem a ver com o ensino do português. O segundo tem a ver com o seu ensino na diáspora, pois no estrangeiro corre-se o risco de os filhos não utilizarem a língua.
O secretário executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa elogiou a presidência angolana na organização. Domingos Simões Pereira disse existirem bons registos. “A avaliação que faço é positiva. Prova disso é que, desde que Angola assumiu a presidência em 2010 e escolheu o lema ‘solidariedade na adversidade’, temos assistido a um esforço extraordinário de elevar o nome da organização”, notou.
Como prova do que afirma, citou exemplos. “A nível da FAO, fomos fazer uma apresentação de um programa estratégico da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa para a segurança alimentar e o Governo de Angola deu o seu cunho governamental”, lembrou o guineense ao serviço da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
Outro facto de relevo, disse, tem a ver com a Guiné-Bissau. “Angola assumiu de forma muito determinada e levou todo o seu contributo para a estabilização deste país. Há outros cenários em que Angola se assumiu como determinante. Se temos a nova sede, é graças também ao empenho de Angola. Globalmente, seja em cooperação, seja na questão da língua e outros aspectos, Angola tem sido determinante”, concluiu.

Embaixador de Angola pede maior envolvimento

O embaixador de Angola em Portugal, Marcos Barrica, disse, à imprensa, ser necessário maior envolvimento dos Estados membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) na execução das resoluções adoptadas em diferentes reuniões.
Com a entrada em funcionando da nova sede, disse o diplomata angolano, a CPLP pode cumprir os objectivos que presidiram à sua criação, fundamentalmente na continuação da promoção da língua portuguesa em escala planetária.A organização, salientou, deve ser uma verdadeira plataforma de concertação, não só de políticas, mas também de ideais, no sentido do desenvolvimento social e económico, tendo em conta o slogan “unidade na diversidade”. Sobre o trabalho desenvolvido por Angola, enquanto presidente da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, referiu que o país, além de ter a oportunidade de inaugurar uma nova sede para a organização no seu mandato, é dos pilares fundamentais na comunidade, pois tem emprestado experiência, principalmente na resolução de conflitos, como acontece agora na Guiné Bissau, que vive um período conturbado.

06 fevereiro 2012


Fonte:

http://jornaldeangola.sapo.ao/20/0/combate_a_pobreza_na_agenda_da_cplp